Um olhar sobre a riqueza dos chineses

04/11/2019

É impressionante o quanto os chineses economizaram nos últimos anos e transformaram o país na segunda maior economia do planeta.

Em uma excelente reportagem publicada no Wall Street Journal, o jornalista James T. Areddy nos revela que a taxa de poupança dos chineses vem caindo na medida que o preço dos imóveis vem subindo em um ritmo mais acelerado do que o dos salários. Além disso, anos de política restritiva quanto ao número de filhos por família contribuíram para uma população que envelhece de forma mais acelerada. Há quem diga que os chineses ficarão velhos antes de ficarem ricos!

Abaixo, apresento alguns gráficos extraídos da reportagem publicada no WSJ com um breve comentário sobre o tema.

No gráfico acima temos o percentual da renda disponível poupado pelos chineses. Como podemos observar, tal percentual vem caindo de forma acelerada. Isso é positivo para o mercado consumidor interno, porém negativo para investimentos globais. Sabe-se que a poupança chinesa financiou o endividamento norte-americano e diversos projetos de infraestrutura ao redor do mundo.

No gráfico acima temos um comparativo entre as taxas de poupança chinesa e norte-americana. Como veremos em outros gráficos a seguir, os americanos fazem uso de instrumentos financeiros para poupar, enquanto os chineses investem grande parte de sua poupança em imóveis. Assim como ocorre em todo o mundo, os jovens chineses também enfrentam enormes dificuldades para adquirir um imóvel. 

O que observamos acima é que a China caminha para um nível de alavancagem que tende a se aproximar dos níveis atuais registrados pelas famílias americanas. 

Por um outro lado, observa-se através do gráfico acima que o ritmo de gastos por família como proporção do PIB se manteve estável nos últimos anos; tanto na China como nos EUA. Por anos tivemos um mundo onde o grande comprador era o americano enquanto o grande poupador era o chinês. Há uma transformação em curso, com repercussões diretas na guerra comercial entre os dois países. Os conglomerados americanos sabem que a China é um dos poucos lugares no mundo onde se pode registrar crescimento expressivo nas vendas.

No comentário acima temos o estereótipo de que o chinês gosta de poupar. Na verdade o chinês poupa por necessidade. Ao contrário do que ocorre em diversos países ocidentais, na China o percentual do PIB dedicado a políticas de bem-estar social (previdência, educação e saúde) é baixo. Não resta ao chinês uma alternativa que não seja a criação de um "colchão de reserva". Além disso, muitos ainda guardam lembranças de um período extremamente desafiador durante os anos 50, onde uma significativa parcela da população passou fome. 

Ter um filho é certamente maravilhoso. Dito isso, poucos discordam que é também algo custoso. No gráfico acima, observamos que a política de um único filho permitiu aos chineses economizar bastante. Além disso, observa-se também outros incentivos para uma maior poupança: desigualdade social, saúde e moradia. O que é fascinante, do ponto de vista econômico, é que ao mesmo tempo em que a demografia foi favorável a uma maior poupança por parte dos chineses, a mesma será responsável por maiores gastos nos próximos anos, na medida em que o envelhecimento chinês se acelera a um ritmo mais elevado do que aquele visto no resto do mundo.

E o que fazer com tanta poupança? Os chineses decidiram fazer duas coisas: comprar títulos da dívida dos EUA e investir em infraestrutura interna e ao redor do mundo. Sendo assim, não é de se surpreender que o mundo viva neste momento uma queda estrutural na inflação. Após anos de investimentos em infraestrutura, os chineses contribuíram para um maior nível de capacidade instalada ao redor do mundo. Por tudo isso, o mundo passa por um momento de elevado nível de ociosidade que resulta em uma menor pressão inflacionária. A pergunta, entretanto, é: até quando?

O declínio na inflação permitiu uma redução expressiva das taxas de juros ao redor do mundo. Como consequência, o preço dos imóveis subiu de forma expressiva em diversos centros urbanos. No gráfico acima, observa-se que este processo, conforme esperado, causa um maior estresse econômico para a camada mais pobre da população -- em particular, para os jovens que se sentem desestimulados diante da enorme tarefa que passou a ser juntar recursos para a compra de uma casa própria. Por tudo isso, mesmo os chineses mais jovens já não conseguem poupar!

O chinês de hoje quer viajar e trocar de carro com a mesma frequência que fazem os americanos. Temos aí uma importante tendência global que, aos poucos, contribui para que o custo do dinheiro se eleve.

Observe que o patrimônio médio por família chinesa é de US$230.000 versus US$692.100 por família americana. Confesso aqui que fico chocado ao ver estes números. É impressionante o quanto o chinês progrediu nos últimos anos! Dito isso, é fascinante observarmos que a forma como o chinês poupa é bem diferente daquela do americano. Enquanto o chinês tem 75% de sua poupança em imóveis, os americanos são mais diversificados, fazendo uso de forma agressiva dos mercados de capitais. O curioso aqui é que, devido as políticas intervencionistas dos bancos centrais, é possível argumentar que há excesso dos dois lados; tanto no preço dos imóveis investidos pelos chineses como no preço das ações investidas pelos americanos.

Nos gráficos acima temos uma melhor descrição sobre como os chineses e americanos investem. Como já mencionado, o chinês adora imóveis. Entretanto, o chinês é ambicioso e vem correndo risco ao investir em crédito especulativo oferecido por empresas financeiras que compõem o que é conhecido por lá como "shadow banking". Isso é certamente uma fonte de risco e algo que vem sendo combatido pelos tecnocratas chineses. Do outro lado do mundo - nos EUA - observa-se que boa parte da poupança reside nos fundos de pensão e no mercado acionário. Agora, você sabia que os fundos de pensão americanos, ávidos por maiores retornos, investiram muitos recursos em fundos de "private equity" (capital de risco)? Sim! Isso é uma outra fonte de risco para os mercados. Caso a inflação suba e leve consigo as taxas de juros, os preços dos ativos estarão vulneráveis a um ajuste significativo.

Acima observamos como o famoso "shadow banking" ganhou importância ao longo dos anos. Trata-se de investimentos alternativos concedidos por financeiras. O governo chinês reagiu e passou a exigir uma maior transparência destas empresas. Muitas já fecharam as portas. Mesmo assim é algo que traz um maior grau de vulnerabilidade a economia chinesa.

Ainda sobre o "shadow banking" chinês, observe acima que, apesar da intervenção chinesa restringindo a atividade, o número de investidores é crescente. A verdade é que o chinês é ambicioso e não resiste à tentação de juros mais elevados. 

O grande problema em ciclos de expansão de crédito está associado a inadimplência que tende a subir. Na China, o que observamos através do gráfico acima, é uma crescente e preocupante elevação desta medida por uma das principais financeiras do país.

Para finalizar, temos um gráfico demográfico que explora aquilo que considero ser um dos fatores mais importantes para o desempenho dos ativos nos próximos anos. Acima temos um gráfico ilustrando o percentual da população com mais de 65 anos em relação ao percentual entre 20 e 64 anos (em inglês, "old-dependency ratio"). O mundo todo está envelhecendo. Entretanto, observe que a população chinesa envelhece a um ritmo mais acelerado! Pois é, aquela política de um único filho retornará para cobrar a conta. Já dizia Milton Friedman: não há almoço grátis!


Marink Martins