A roupa mais limpa em um cesto de roupas sujas

03/07/2020

Talvez você já tenha ouvido esta expressão que é uma tradução livre de "cleanest dirty shirt". Tal expressão se tornou popular pelo mundo após a grande crise financeira de 2008 e se referia ao fato dos EUA se destacarem em meio a um mundo que simplesmente parecia andar de lado.

Nos últimos anos, medindo em moeda forte, tudo que vimos foi uma tremenda "outperformance" dos índices americanos, liderados especialmente pelo setor de tecnologia.

Contudo, a chegada da pandemia provocou reações divergentes ao redor do mundo. Embora poucos tenham passado ilesos pelo evento, a reação de cada país foi bem diferente em termos de magnitude.

Em comum temos um enorme esforço de monetização das dívidas emitidas pelos diversos governos. Refiro-me a expansão dos agregados monetários. A tabela abaixo é ilustrativa de como alguns países simplesmente injetaram muito mais recursos em sua respectiva economia do que outros:

Os EUA se destacam na tabela acima por terem promovido um aumento na quantidade de dinheiro em circulação sem precedentes na história.

Essa iniciativa, em conjunto com diversas outras mais populistas, vem contribuindo para uma visão de maior cautela no que se refere a ativos norte-americanos. Será que tudo isso - que venho chamando por aqui de processo de latinização dos EUA - irá fazer com que os americanos deixem de ser a camisa mais limpa em um cesto de roupas sujas?

Bem, a resposta a esta pergunta virá através da força do dólar frente as demais moedas do mundo desenvolvido. Louis-Vincent Gave, fundador da Gavekal, aposta que a moeda americana irá perder atratividade em algum momento em 2021. Especula-se que, uma vez que seja "virada a página" na questão da epidemia, a economia americana terá que conviver com o início de um processo inflacionário.

Além disso, temos também o fato de que os países asiáticos estão transitando pela pandemia de uma forma mais resiliente e sem a necessidade de embarcar em processos agressivos de monetização de dívidas.

Que "todos os caminhos levam a Pequim" se posiciona como uma expressão que tende a ganhar importância nos anos que estão por vir.

Marink Martins