Ah se eu fosse o verdadeiro Mayrink!

21/08/2019

Desculpe te frustrar, mas a mim não só falta uma letra no nome, mas também os bilhões de libras esterlinas ("uma vez feito a correção monetária pela passagem de 130 anos") e, provavelmente, muitos outros atributos.

Refiro-me a Francisco de Paula Mayrink, o homem mais rico de um período fascinante do mercado financeiro brasileiro - O Encilhamento. Conhecido como Conselheiro Mayrink, o empresário era dono de um conglomerado de empresas, com destaque para o Banco dos Estados Unidos do Brasil, um dos emissores do papel-moeda da República. Além de controlar o maior banco, Mayrink, que foi dono do Palácio do Catete no Rio, controlava também a Estrada de Ferro Sorocabana, dentre muitas outras.

Conselheiro Mayrink reinou em um mercado que vivia a euforia da extinção da escravidão em maio de 1888 e da proclamação da república em novembro de 1889. Como toda "bolha econômica", o Encilhamento -- cujo nome foi inspirado no hipismo -- foi uma das maiores farras de crédito já vista no país. Em uma espécie de pregão ao ar livre, que ocorria diariamente por 30 minutos de duração, na Rua da Alfândega no Rio de Janeiro, negociavam-se papéis de empresas recém-lançadas como se não houvesse amanhã.

Tenho muito a escrever sobre este período e traçar alguns paralelos com os dias atuais. Naquela época tínhamos Ruy Barbosa no lugar que hoje é ocupado por Paulo Guedes.

Os tempos são outros, mas o que é comum em todas as bolhas é que elas sempre terminam com algum evento catalisador que freie a expansão de crédito, ou o popular "oba-oba" dos mercados.

Como hoje o mundo todo cabe em nossos bolsos, não chega ser um absurdo afirmar que temos uma espécie de Encilhamento ocorrendo nos EUA. E se o destino deste ciclo americano for o mesmo dos outros, creio que há muito para aprendermos analisando períodos históricos como este vivido no Brasil. Mas tudo isso vou deixar para um outro texto.

Agora, voltando ao título do texto... se eu fosse o verdadeiro Mayrink, não ia ter para ninguém. Dono do Banco dos Estados Unidos do Brasil eu iria sair fazendo "Total Return Swap" baseado em tudo quanto é ação considerada "absurdamente cara" no mundo. Deixe eu explicar isso melhor.

Assuma que eu esteja pessimista com os mercados e deseje vender a descoberto ações de diversas empresas. Para fazer isso, primeiramente, eu preciso obter tais ações emprestadas de terceiros -- incorrendo em custos de aluguel - para depois vende-las nos mercados. Tudo isso dá trabalho e ainda deixa o "vendido" vulnerável a um "corner" a ser promovido por outros acionistas. Um bom exemplo disso é a história de Bill Ackman que apostou contra as ações da empresa Herbalife e acabou tomando um "corner" de investidores como Carl Icahn.

Agora, e se eu pudesse efetuar tais vendas de forma "sintética" via contratos de SWAP que liquidam pela diferença de variação no preço para um determinado período?

Sim. É possível! Tratam-se de contratos negociados entre muitos "hedge funds" e bancos globais com notas de crédito AAA. Para fazer este tipo de operação é necessário ter bastante patrimônio e acesso a um contrato ISDA. Se você assistiu o filme A Grande Aposta, há de se lembrar dos dois garotos que lutaram muito para ter acesso a este tipo de mercado de balcão aonde são negociados diversos tipos de SWAP - dentre eles, aqueles associados a crédito como os Credit Default Swap (CDS).

Assim, de posse do poderio financeiro do Conselheiro Mayrink, poderia apostar pesado contra alguns desses papéis que talvez simbolizem uma espécie de bolha nos atuais mercados. Não vou mencionar nomes aqui por questões de compliance. Mas após finalizar tais operações, entraria no meu Tesla Model X, pois não andaria de Uber, pararia para ver ser está tudo bem no WeWork, com uma passada rápida na Hamburgueria Shake Shack que já deve estar vendendo Beyond Meat - tudo isso a caminho da sede da Amazon em Seattle para checar se há rumor de compra de alguma varejista brasileira que anda negociando na estratosfera.

Marink Martins

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