Cheiro de divergência

27/06/2024

Ainda que os índices Ibovespa (+0,25%) e S&P 500 (+0,16%) tenham registrado altas tímidas nesta quarta-feira, há indícios de que a negociação da quinta-feira poderá ser não só diferente, mas também divergente.

Arrisco fazer esta afirmação, pois o IBOV passou a quarta-feira sofrendo em meio a uma entrevista desastrosa concedida pelo nosso presidente da república ao UOL. No fim do dia, logo após a realização da reunião do Conselho Monetário Nacional, o índice mostrou força e fechou na máxima.

Já em Wall Street, a movimentação foi um tanto diferente. Por lá, a alta segue concentrada e liderada pelas "Big Techs". Ontem foi a vez da Amazon entrar para o clube das empresas cujo valor de mercado é superior a 2 trilhões de dólares (Microsoft, Apple e Nvidia já estão no grupo dos 3 tri, enquanto a Google é a outra no grupo dos 2 tri). No fim do dia tivemos a divulgação de um teste de estresse feito junto aos principais bancos dos EUA. Como resultado, observou-se um recuo superior a 1% no preço das ações da Goldman Sachs, do Morgan Stanley, do Wells Fargo e de outros bancos.

Curiosamente, o mercado acionário norte-americano vive um momento de baixíssimo VOL -- o VIX encontra-se a 12,55% -- e baixíssima correlação implícita medida pela Chicago Board Options Exchange (CBOE). Observe no gráfico abaixo como a correlação entre as 50 maiores empresas do S&P 500 se comporta em relação ao movimento do próprio índice S&P 500.

Conforme podemos observar, a correlação medida pela CBOE encontra-se no nível mais baixo desde 2007. Observe também, em destaque, que tal indicador atingiu níveis elevados em 2012 (época da crise dos títulos europeus) e em 2020 (pandemia). Durante estes períodos, tudo caía e subia em sintonia. Hoje, a história é completamente oposta. Enquanto as "Big Techs" celebram, outros setores como o de consumo de bens de primeira necessidade (Staples) sofrem como se fossem um mercado emergente.

Agora, observe um outro gráfico:

Neste gráfico observamos o percentual das ações de empresas que compõem o índice Nasdaq 100 que estão sendo tomadas para operações de venda a descoberto. Como podemos observar tal percentual só faz cair. Isso representa um claro sintoma de que quase ninguém tem mais apetite para ficar vendido a descoberto em Nasdaq 100. E se o "vendido" já foi "sepultado", fica a pergunta: quem será o comprador marginal que dará continuidade ao tão celebrado "bull market" do setor de tecnologia dos EUA?

Há sempre a possibilidade de rotação setorial. Caso isso ocorra será certamente um claro sinal de saúde para a principal bolsa do mundo. Todavia, caso isso não ocorra, é bem provável testemunharmos um recuo no índice de forma a corrigir certos exageros.

De volta ao título deste texto -- "Cheiro de Divergência" -- vale dizer que nesta quarta-feira o dólar -- medido pelo "dollar index" (DXY) -- rompeu o patamar de 106. A moeda japonesa caiu mais, de forma que 1 USD = 160 JPY. Além disso, tivemos mais um dia em que alguns bancos europeus não performaram muito bem.

Por tudo isso, penso que a recuperação vista no IBOV no fim da tarde desta quarta-feira, se confirmada na quinta, poderá ser um sinal de que o nosso índice poderá recuperar, mesmo que parcialmente, o espaço perdido para o S&P 500 nos últimos dois meses.

Para concluir, esta quinta-feira é dia do primeiro debate de candidatos a presidente dos EUA. Será que a recente alta do USD é um sinal de que o mercado espera que Trump terá sucesso neste primeiro embate? Estaria tal movimento associado a um receio de tarifas a serem impostas pelo candidato republicano?

Quando o assunto é câmbio e eleição americana, uma ironia reside na ideia de que um eventual sucesso de Trump poderá levar a um dólar mais forte (medo de tarifas contra importações chinesas e, quem sabe, japonesas) e, ao mesmo tempo, aumentar a possibilidade de uma eventual intervenção do Tesouro dos EUA (um possível novo Acordo de Plaza). Para entender tudo isso, ver o MyCAP Tendências Globais através ao clicar aqui.

Ontem, o Zero Hedge veio com uma matéria cujo título questionava se a festa em Wall Street estava para acabar. Dizia também que os Hedge Funds estão vendendo suas posições em ações de tecnologia para os investidores de varejo.

Com o início do verão no hemisfério norte, entramos naquela fase de mercado em que os volumes ficam mais fracos e em 20 minutos tudo pode mudar.

Marink Martins


www.myvol.com.br