A perda de poder aquisitivo dos americanos

16/10/2019

Em um determinado evento realizado este ano, o financista André Jakurski, fundador da gestora JGP, nos inspirou ao afirmar que não são os ativos globais que se apreciam, mas sim as moedas que, de fato, perdem valor.

Em uma reportagem publicada na edição do Wall Street Journal de ontem temos uma comprovação concreta do fenômeno descrito acima. O fato é que, dentre os trabalhadores americanos com salários anuais superiores a US$100.000 o percentual que hoje necessita alugar um imóvel, ao invés de comprar, subiu de 12% em 2006 para 19% em 2019! O cálculo já leva em conta a inflação de 27% no período.

No gráfico acima, o percentual daqueles que alugam com base em salários anuais. Observe que aqueles que houve um aumento expressivo dos grupos com renda anual acima da média do país que é de US$63.179,00.

O que temos aí é também uma comprovação de que toda a liquidez gerada pelo FED serve mesmo é para gerar uma bolha de ativos que, em grande parte, beneficia somente os ricos; os detentores de posições acionárias e imóveis.


Você não pode perder o sétimo episódio da série 2020 - O ANO DA TURBULÊNCIA! Nele apresento 4 argumentos que apontam para uma maior vulnerabilidade nos mercados. Confira ao clicar aqui.


Como pode a economia americana estar indo tão bem -- como afirma seu presidente - se os americanos enfrentam uma tremenda dificuldade para adquirir um imóvel?

A resposta a esta pergunta está associada a tese que muitas vezes exploro em meus textos e a chamo de um processo de latinização dos EUA. A verdade é que por lá a renda é cada vez mais mal distribuída. No agregado ela cresce, porém as benesses são auferidas por uma classe de privilegiados que é cada vez menor. Aqui vale reiterar que o segmento que representa o grupo de 1% dos mais ricos dos EUA detém 40% dos ativos do país. Esse percentual é o dobro do que é visto na Inglaterra. A cidade de São Francisco, na California, é a cidade que conta com o maior número de bilionários do mundo. Curiosamente, é também a cidade onde os turistas mais se chocam ao se defrontarem com um elevado número de pedintes espalhados pela cidade; em particular, no famoso distrito conhecido como "Tenderloin".

Os imóveis vendidos nos EUA são cada vez mais adquiridos por grandes conglomerados. Por isso, ao focarmos nos valores agregados não observamos a grande deterioração que está em curso por lá.

Historicamente, a forma pela qual a família americana enriquece ainda é através da valorização de seus imóveis. Dados do segundo trimestre deste ano indicam que há 78,5 milhões de casas em posse de cidadãos americanos contra 43,9 milhões de casas alugadas. Entretanto, a deterioração deste "mix" discutida aqui, não deveria estar ocorrendo em uma fase do ciclo econômico onde a taxa de desemprego encontra-se na mínima histórica! 

No gráfico acima observamos de forma mais clara como a busca por aluguéis é sintomática de uma economia que distribui cada vez pior a renda gerada no país.

A verdade é que o cidadão médio dos EUA, com uma renda anual de US$63.179, se sente pressionado e vive com uma taxa de poupança cada vez menor. A grande crise financeira vivida em 2008 destruiu o valor dos imóveis da população e fez com que o americano se endividasse de diversas formas. Em destaque, as famílias cujos filhos estavam na iminência de entrar em uma universidade acabaram recorrendo aos empréstimos estudantis, e hoje não só enfrentam uma vida bem mais apertada, mas se sentem cada vez mais distantes do sonho americano.

Por tudo isso, neste momento em que a economia dos EUA começa a dar sinais de desaceleração, é importante que o investidor global tenha consciência de que poderemos ver uma deterioração em termos de sentimento de mercado; algo que poderá provocar um salto na volatilidade análogo àquele visto em fevereiro de 2018. Os investidores mais jovens, mal-acostumados com a cultura do "caiu comprou" (da expressão em inglês "buying on dips") certamente estarão vulneráveis em caso de derrocada nos mercados. Observe que um importante catalisador para tal movimento poderá estar associado a eleição presidencial do ano que vem; um evento que promete trazer bastante volatilidade aos mercados.

Marink Martins