Hong Kong e Taiwan - novas frentes de embate

11/06/2019

Em relatório publicado hoje, a casa de pesquisa Gavekal discute os riscos associados a uma intervenção da China Continental na esfera jurídica da ilha de Hong Kong.

Em 1997, Hong Kong, que esteve sob o controle britânico desde o século 19, passou a ser uma região administrativa especial sob o comando chinês. No acordo de transição, os chineses concordaram em respeitar sua autonomia econômica e jurídica no que ficou conhecido através da expressão, "one country, two sytems".

Ocorre que está em votação uma lei que permitirá que condenados em Hong Kong sejam extraditados para a China Continental. Isso é visto como uma tremenda intervenção nos direitos civis dos cidadãos e tal revolta levou mais de um milhão de pessoas as ruas neste último domingo.

Eu discuti este assunto em maiores detalhes na série de podcasts que venho gravando junto a Inversa Publicações. Você pode acessá-lo clicando aqui:

Considerando que representantes de Pequim tem 43 dos 70 votos existentes no que tange a decisões políticas em Hong Kong, é quase certo que tal medida deverá ser aprovada. Isso, entretanto, é uma medida que traz riscos em meio ao embate entre os Estados Unidos e a China. Eu explico.

Em 1992 foi assinado um acordo denominado de United States - Hong Kong Policy Act. Neste acordo a ilha de Hong Kong passa a desfrutar de condições tributárias e alfandegárias relativamente mais favoráveis assumindo que o governo chinês respeite o sistema descrito acima como "one country, two systems".

O problema é que na medida em que as tensões entre os dois gigantes se intensificam, é possível que os EUA passe a ver tal situação como uma violação do acordo de 1992, e decida revogar tal acordo, com consequências impactantes para o comércio asiático e, quem sabe, para os mercados de capitais global.

Talvez você ache tudo isso muito distante para que a bolsa brasileira seja afetada. Contudo, você deve saber que a crise de 1997, que tanto afetou o Brasil, teve início justamente no dia 2 de julho de 1997, um dia após a transferência de controle da ilha das mãos dos britânicos para as mãos dos chineses. E não imagine que isso foi uma mera coincidência. A percepção de um maior risco na região provocou uma forte saída de capital da Tailândia que forçou o país a promover uma desvalorização em sua moeda de 15%. Daí em diante, tudo caiu como se fosse um dominó.

Naturalmente, vivemos hoje em um outro mundo. É raro ver países com o câmbio fixo. Hong Kong é uma exceção com seu "currency board" onde cada dólar de Hong Kong em circulação é lastreado com mais de um dólar americano em reserva. Na verdade, as reservas cambiais da ilha equivalem a 46% do agregado monetário conhecido como M3 em dólares de Hong Kong. Um patamar considerado bem confortável.

Mesmo assim, há razões para se preocupar. Ontem no podcast discuti sobre a iniciativa do "Committee on the Present Danger - China", um comitê americano reconhecido historicamente por exercer enorme influência em Washington em questões consideradas como ameaça a soberania nacional norte-americana. Este comitê, que conta com pessoas de alto nível -- como ex-membros da CIA, oficiais reformados, políticos influentes -- ao longo da história, foi reconhecido por 4 iniciativas marcantes: nos anos 1950 e 1976 tendo a União Soviética como alvo, em 2004 tendo o terrorismo como alvo, e agora, em 2019, tendo a China como alvo.

Não é só por isso que afirmo estarmos entrando em um período de elevado risco nos mercados. Está certo que a bolsa americana se recuperou. Porém, ontem mesmo Trump, em entrevista na CNBC, criticou o FED por não seguir suas recomendações. Complementou fazendo uma comparação, no mínimo perigosa, ao dizer que Xi Jinping é quem comanda a política monetária na China.

Há riscos de que os EUA ameaçem revogar o acordo com Hong Kong. Isso poderá fazer com que investidores se precipitem.

Há riscos também associados a Taiwan. A China considera esta outra ilha como seu território, sendo que esta se comporta de forma independente desde a revolução comunista chinesa em 1949, quando o líder do partido nacionalista chinês, Chiang Kai-Shek, teve que fugir para Taiwan.

Taiwan é aliada dos EUA e, recentemente, adquiriu mais de 2 bilhões de dólares em armamentos norte-americanos. Tudo isso irrita os chineses que, em 2018, fizeram uma das maiores demonstrações de força no estreito de Taiwan.

Para Arthur Kroeber, chefe de pesquisa da Gavekal, se há algo que tira o seu sono é a ideia de que a China poderá invadir Taiwan em um futuro próximo. Como reagirá os americanos caso isso ocorra?

Enquanto isso, em Wall Street... eles só querem saber de hamburguer a base de proteína de soja!!! Dá-lhe Beyond Meat!!! 600% de valorização desde seu IPO há um mês!

Marink Martins