Quão otimistas estão os americanos?

07/06/2024

Ninguém questiona que o momento atual é de excepcionalismo norte-americano. Na virada do mês, o número de passageiros transitando pelo aeroporto de Atlanta foi um recorde. Os americanos estão viajando para a Europa e outros destinos como nunca fizeram antes. Já no mercado de ações, a Nvidia surpreendeu e conquistou o lugar de segunda empresa mais valiosa do mundo, superando a Apple.

De acordo com o relatório Z1 publicado pelo FED, o patrimônio líquido das famílias americanas cresceu de 117 tri (fim de 2019) para algo próximo a 170 tri nos dias de hoje. Estamos falando de uma criação de valor superior a 50 trilhões de dólares. No gráfico abaixo, temos o total de ativos, passivo e patrimônio líquido consolidado das famílias americanas com base em dados publicados relativos ao último trimestre de 2023.

O que muitos não percebem é que uma boa parte desta criação de valor mencionada acima (criação > 50 trilhões) se refere ao otimismo dos investidores norte-americanos e globais em relação aos ativos do país (principalmente ações e imóveis).

Conforme podemos observar no gráfico abaixo publicado pela empresa FactSet, o atual preço do índice S&P 500 (linha azul clara) negocia a um elevado "prêmio" em relação a lucratividade projetada das empresas para os próximos 12 meses (linha azul escura).

Atualmente, a relação de Preço/Lucro projetada para o S&P 500 está em 20,3x. Este múltiplo se compara a uma média de 19,2x nos últimos 5 anos e 17,8x nos últimos 10 anos. Curiosamente, esta exuberância vista no mercado de ações também pode ser detectada no preço dos imóveis residenciais. A relação entre o valor dos imóveis e os respectivos aluguéis está tão esticada quanto a relação de P/L vista na bolsa americana.

Assim, se ajustarmos o patrimônio líquido das famílias de forma a refletir a relação de P/L estimada representativa da média dos últimos 10 anos (17,8x), teríamos um recuo na criação de valor mencionada (> de 50 tri) para um valor próximo a 32 trilhões de dólares.

O que busco transmitir neste texto é que parece ser uma questão de tempo para que as linhas (azul clara e azul escura) se cruzem. Considerando que o preço do S&P 500 é mais suscetível ao otimismo dos agentes, o mais provável é que a linha azul clara (preço do S&P 500) vá na direção da linha azul escura. Dito isso, fazer este tipo de aposta tem sido um dos maiores "pain trades" (trade da frustração) da história. Apostar contra a Nvidia e Jensen Huang tem sido algo extremamente ingrato.

No entanto, em um passado distante -- em uma famosa bolha também associada ao Nasdaq e ao S&P 500 -- havia uma empresa de "hardware" que momentaneamente disputou a posição de empresa mais valiosa do mundo com a mesma Microsoft. Ao invés de GPUs, esta empresa vendia "switches e roteadores". Seu comandante, John Chambers, por um momento brilhou tanto quanto Jensen Huang. Se hoje a briga pelo primeiro lugar gira ao redor de um valor de mercado de 3 trilhões de dólares, naquela ocasião o valor em questão era de 600 bilhões de dólares. Naturalmente, estou falando da empresa Cisco Systems.

No gráfico abaixo, temos uma comparação da trajetória do preço das ações da Cisco com o das ações da Nvidia. No caso da Cisco, o ponto de partida é 1992 (data do IPO da AOL). Já no caso da Nvidia, o ponto de partida é 2016, data que o CEO da Google declarou a Nvidia como líder no segmento de AI.

Marink Martins

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