Três formas de pensar o mercado

25/04/2019

Hoje escrevo para aquele que está começando no mercado de ações. Quero explorar aqui três formas de pensar o mercado para que o investidor possa refletir a respeito delas e buscar uma estratégia que seja condizente e coerente com a linha de pensamento que o investidor julgar ser a mais adequada para si.

Penso nos seguintes alinhamentos psíquicos antes da implementação de uma estratégia:

  • Alinhamento com processos de reversão à média
  • Alinhamento com movimentos associados a tendência
  • Alinhamento com processos transformacionais de longo prazo

É justamente nesta primeira forma de pensar o mercado - processos de reversão à média - onde se encontra a maioria dos participantes do mercado.

Os processos de reversão à média são aqueles em que o investidor se sente compelido a vender um ativo assim que ele sobe, e a comprar o mesmo, assim que ele cai. Esses eu os chamo de arbitradores de mercado.

Não desejo aqui atribuir valor a tais estruturas psíquicas. Julgo que é possível ganhar dinheiro em qualquer uma dessas frentes. A mensagem aqui é a busca pelo autoconhecimento. Algo como: onde será que você se encaixa?

Aqueles associados a busca de uma tendência já pensam de uma forma distinta da dos arbitradores. Estes partem de uma premissa de que o que está dando certo, tende a continuar dando certo, e o que está dando errado, tende a continuar dando errado. Esses eu os chamo de caçadores de tendência ou, em inglês, os "momentum players".

Já os investidores de longo prazo - aqui chamados de visionários - são aqueles que, de forma natural, adoram conceber processos transformacionais.

Seguindo essa linha, vale pensar aqui que boa parte das estratégias associadas a geração de renda estão associadas a processos de reversão à média. Refiro-me, por exemplo, a estratégias com operações estruturadas no mundo das opções. Os arbitradores de mercado buscam taxas, ou buscam ganhos rápidos e frequentes. Pra isso, é necessário ter custos operacionais mais baixos, suar a camisa, aceitar ir contra a tendência. Aceitar que muitas vezes o arbitrador irá vender a ação muito cedo e perderá boa parte de uma  eventual apreciação posterior a sua venda.

A vida do caçador de tendência não é muito mais fácil. Este terá que ter um método que o dê confiança para comprar ativos que muitas vezes são considerados caros para o arbitrador, mas que para ele é uma oportunidade de surfar uma onda de apreciação mais longa. O caçador de tendência deve saber conviver muito bem com STOPs - o que é um dos maiores desafios para aqueles que habitam o mundo da renda variável. Ao contrário do arbitrador, o caçador de tendência normalmente tem uma dificuldade de casar receita com despesas mensais. Por isso, para explorar esta forma de atuação é necessário contar com uma reserva de caixa para que o caçador não tenha que violar o seu próprio método para ter que pagar sua conta de luz.

E neste sentido, o visionário é definitivamente aquele que tem que possuir outra fonte de renda. Não é possível pagar as contas do mês sendo um visionário. Dito isso, esse tende a pensar grande e a ignorar ruídos de mercado. Esse precisa ser quase um insider na medida que se faz necessário conhecer muito bem o ativo investido.

Enquanto o arbitrador de mercado necessita dedicar muito tempo em frente a um desktop, o visionário precisa gastar sola de sapato para conversar com clientes, fornecedores, funcionários de sua querida empresa. O visionário "casa" com a empresa escolhida. Já o arbitrador "a usa" como uma ferramenta em busca de uma geração de renda.

E aí, você se encaixa em uma das opções acima? Eu sou definitivamente um arbitrador de mercado. Não tenho estômago para conviver com as expressivas perdas que normalmente fazem parte da história de um visionário de sucesso. O visionário que surfou a apreciação de duas décadas nas ações da Apple, por exemplo, teve que conviver com 3 períodos de perdas superiores a 70%! Isso, definitivamente, não é para mim. Eu sei que eu iria acabar vendendo no pior momento possível.

Marink Martins