Uma ameaça a tese de investimentos em ações da Petrobras

14/11/2019

Tony Seba é professor da Stanford University e autor do livro "Clean Disruption of Energy and Transportation". Dediquei um episódio da série MyCAP Tendências Globais - episódio #5 - para comunicar suas expectativas relacionadas ao sistema de transporte global.

Acusado de insano na época do lançamento de seu livro, Tony Seba vem se provando um visionário na medida que muitas de suas previsões começam a se materializar. Dentre os seus estudos, destaque para as curvas de custos associadas a diversas tecnologias. Uma delas está relacionada ao custo de produção de baterias que, como estimado pelo autor em 2014, teve seu custo barateado em 90% nos últimos cinco anos. Na ocasião ele previa que em 2019 teríamos um carro elétrico ao custo de aproximadamente US$35.000, algo que se confirmou com a chegada do Modelo S da Tesla. Agora, dentre muitas de suas estimativas, ele prevê que teremos um carro elétrico ao custo de US$10.000 em 2025!


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Contudo, o fascínio de suas previsões não está associado a adoção de uma tecnologia em particular, mas sim na convergência de diversas destas. A mais importante a que Seba se refere diz respeito a conjunção de fatores que permitirão uma maior adoção de carros elétricos autônomos já em 2024.

Acima, um gráfico ilustrando o ciclo de adoção de produtos. Trata-se de uma curva em forma de "S". Curiosamente, os ciclos estão cada vez mais rápidos. Dito de outra forma, as curvas estão cada vez mais inclinadas. O ciclo de adoção de carros elétricos autônomos será extremamente rápido e surpreendente, deixando muitos "players" tradicionais traumatizados.

Ao cético, tudo isso pode parecer distante, ou até mesmo um chute. Mas, a verdade é que nos últimos anos também houve um expressivo barateamento da produção de chips e de sistemas necessários para a viabilização do que é conhecido como automação nível 4.

Um exemplo concreto destes avanços e desta tendência está no fato de que a empresa Amazon encomendou recentemente a produção de 100.000 vans elétricas da empresa Rivian. Tais vans serão entregues a partir de 2021 e estima-se que em 2024 todas estarão nas estradas. Tratam-se de vans que fazem de 0 a 100 km/h em 3 segundos e que, em muitos casos, virão com automação nível 4.

Tony Seba explora diversas implicações associadas a estes avanços. Neste momento, entretanto, quero me ater a possíveis consequências traumáticas para o mercado de ações brasileiro.

Ele descreve a expressão "Market Trauma" como um impacto financeiro devastador que ocorre de forma rápida e desproporcional devido a adoção da convergência supracitada. Tal trauma pode ser facilmente identificado em diversos segmentos como o de taxistas, gravadoras, locadoras de DVDs, corretoras de valores, telefonia e muitos outros.

Agora, um que está por vir e que poderá ter repercussões globais avassaladoras está relacionada ao setor petrolífero e automobilístico. De certa forma, isso já está em curso. Basta observarmos que já há uma recessão industrial na Alemanha que certamente tem a ver com o setor automobilístico. Já no setor petrolífero, o preço de algumas ações relacionadas ao setor de exploração e produção negociam a preços da época em que o preço do barril de petróleo estava próximo a US$12,00; lá, por volta de 1998.

Dito isso, Tony Seba acredita que tais impactos estão somente no começo. Diz ele que basta vermos a oferta de petróleo superando a demanda em um pouco mais de 2 milhões de barris/dia para que o preço do petróleo colapse para um nível inferior a US$25,00! E se isso ocorrer, "bye-bye" exploração de petróleo em águas profundas e em xisto. A curva de preços futuros do petróleo, em formato invertido ("backwardation") já reflete, em parte, essa expectativa.

Considerando a importância da Petrobras para economia e a para a bolsa brasileira, creio que as previsões de Tony Seba são extremamente importantes para qualquer investidor que tenha uma visão de longo prazo para os ativos brasileiros.

Marink Martins