Uma era de consumo ostentatório

23/02/2024

Em épocas em que a moeda de um determinado país está forte, é quase certo que o consumo dos seus cidadãos tende a crescer de forma significativa, até mesmo gerando algumas situações que podem ser vistas como abusivas. Muitos brasileiros hão de se lembrar de abusos observados em aeroportos internacionais durante aquele período ao redor de 2010 em que um dólar comprava menos de 2 reais. Mas isso não foi uma exclusividade nossa. Tal pecado já foi cometido por argentinos nos anos 90 ao gastarem no Brasil, por japoneses nos anos 80, aos gastarem ao redor do mundo, e por muitos outros povos.

Hoje a moeda que exibe mais força e potencializa seus consumidores é sem dúvida o dólar americano. Ele pode até não está nas máximas frente ao real ou ao peso mexicano, mas quando comparado ao euro, ao iene, ao iuane, ao won sul coreano, ele vem bancando uma tremenda festa de consumo ostentatório. Consumo este que privilegia viagens internacionais e artigos de luxo que incluem ferraris e produtos produzidos por empresas francesas como a LVMH.

É importante observar que este consumo ostentatório tende a ser financiado por recursos que entram no país via conta de capitais e que são alocados em ativos como ações (listadas e privadas), imóveis, títulos de renda fixa e outros. Nos EUA, o valor de mercado das ações listadas supera hoje 50 trilhões de dólares. Destes, aproximadamente 13 trilhões de dólares são oriundos de investidores estrangeiros. Os ricos espalhados pelo mundo vem fazendo a festa junto com os americanos e embarcando em todos os tipos de narrativas que dão sustentabilidade a um dos mais longos "bull markets" da história.

No gráfico abaixo, temos na linha vermelha as ações globais excluindo as americanas, em comparação com a linha azul que reflete o desempenho das ações dos EUA. Observe que o gráfico começa próximo ao período em que o dólar deixou de estar atrelado a um valor fixo em relação ao ouro (agosto de 1971). Como podemos observar, por muito tempo, as ações do resto do mundo performaram muito melhor do que as americanas.

De 2011 em diante -- partindo da famosa frase atribuída a Marc Andreessen, "software is going to eat the world" (os "softwares" irão devorar o mundo) -- os EUA engataram uma sexta marcha e não olharam para trás. Passaram uma década crescendo de forma não inflacionária graças também à revolução tecnológica associada à exploração do "shale gas/oil".

O momento atual é certamente um que favorece ao que vem sendo chamado de excepcionalismo norte-americano. Os americanos estão na crista da onda. Eles não só vem crescendo sua economia, mas estão na frente no que há de melhor em termos de tecnologia.

Se o sonho de um jovem em 1985 era ter um Walkman da Sony, o sonho do jovem de hoje é muito mais rico do ponto de vista do uso da tecnologia. Ele quer fazer um upgrade do seu Iphone e até mesmo comprar um Apple Vision Pro. No trabalho, está ansioso para assinar o Co-Pilot da Microsoft e ter acesso ao poder da inteligência artificial. Seus dados como fotos e vídeos -- que são frequentemente postados no Insta e Whatsapp da Meta -- ficam devidamente armazenados nos data centers da Amazon e da Google. Data Centers que, em breve, serão mais rápidos e mais inteligentes através do uso de placas GPUs fornecidas pela Nvidia. E se ele puder fazer tudo isso e chegar para ver seu respectivo/respectiva dirigindo um TESLA Model Y, aí tirou onda!

Estes americanos são definitivamente excepcionais! Tão excepcionais que, mesmo produzindo somente 18% do PIB global, eles abocanham quase 70% da capitalização de mercado do mundo. Há limites para este excepcionalismo? Para os que acreditam que sim, há quem diga que o próximo "bull market" irá ocorrer nos mercados emergentes (excluindo a China). Tal ciclo irá privilegiar o consumo de coisas mais simples como minério de ferro, cimento, etc.

Dizem que a cura para preços elevados é a própria existência de preços elevados. O dólar americano está caro em um período em que o governo americano gasta como se estivesse em uma guerra. Nos anos 60 os americanos ganharam diversas batalhas. Conquistaram o espaço. Mesmo assim, na década subsequente, enfrentaram desvalorização e inflação.

Por fim concluo, reiterando duas ideias que venho transmitindo por aqui:

1. O dinheiro para tão aguardada alta da bolsa brasileira já está aqui. Ele encontra-se "empoçado" na renda fixa doméstica, necessitando de um choque de confiança para entrar em movimento e virar liquidez (ser convertido de M2/M3 em M1).

2. O desempenho da bolsa americana depende muito mais da confiança dos estrangeiros na criação de narrativas dos americanos do que os próprios americanos parecem acreditar. Os americanos acreditam ser auto suficientes em tudo!

Marink Martins

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