De Super Star a Fantasma da Ópera

Andrew Lloyd Webber talvez ajude mais a entender o mundo atual do que muitos relatórios de macroeconomia.
Vivemos a era do Donald Trump Superstar. Como em Jesus Christ Superstar, ele ocupa o centro do palco, domina o noticiário, polariza paixões e transforma qualquer evento — político, jurídico ou comercial — em espetáculo. O silêncio, para ele, não é uma opção.
Mas todo musical tem virada de ato.
Trump ainda surfa a onda, mas o libreto começa a apertar. Suas tarifas enfrentam questionamentos constitucionais na Suprema Corte. No Congresso, as midterms se aproximam como um teste de stress institucional. Uma derrota relevante pode transformá-lo rapidamente em lame duck — ou algo mais grave.
É aí que o enredo começa a lembrar " Don't Cry for Me Argentina ". A canção não celebra o auge do poder; ela marca o momento em que o líder passa a pedir compreensão quando o controle começa a escapar. No nosso caso, a adaptação moderna poderia ser:
" Don't cry for me, Melania ."
Do ponto de vista financeiro, o mercado entende esse segundo ato com rapidez: mais ruído político, mais incerteza institucional, mais prêmio de risco. Capitais ficam inquietos. O dólar deixa de ser apenas força e passa a ser variável.
E então surge o terceiro ato possível — O Fantasma da Ópera.
Não mais o protagonista absoluto, mas uma figura que assombra o sistema, influencia narrativas, porém já sem comando pleno do palco. O poder permanece, mas deslocado para os bastidores.
Talvez o símbolo final dessa transição não seja Trump, mas a moeda. Um dólar estruturalmente mais fraco pode acabar sendo o verdadeiro fantasma: sinal de que a hegemonia americana segue existindo — mas já não é incontestável.
Como nos musicais de Webber, o público só percebe no fim: a história nunca foi apenas sobre o personagem principal. Foi sobre o sistema que o elevou — e agora precisa precificar a conta.
Marink Martins
