A volatilidade e a geração Z

19/11/2018

Como trader de opções há 20 anos, tenho a volatilidade dos mercados como o indicador mais relevante em minha análise. Hoje, entretanto, gostaria de explorar um outro tipo de volatilidade; uma relacionada a volatilidade na vida de nossos filhos.

De acordo com a famosa Academia Militar dos Estados Unidos, também conhecida como "West Point", vivemos em um mundo dominado pela volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade ("VUCA", na sigla em inglês). Apesar da constatação, famílias optam por uma forma de criação que parece ignorar tais atributos.

Nos dias de hoje, nós pais, buscamos eliminar todas as incertezas e complexidade em torno dos nossos filhos na esperança de um reconhecimento, talvez de um amor que, para muitos, fora escasso em suas respectivas infâncias.

Penso neste assunto ao mesmo tempo em que ouço um "podcast" sobre a recém-lançada biografia de Leonardo Da Vinci escrita pelo brilhante Walter Isaacson, também autor das já consagradas biografias de Benjamin Franklin, Albert Einstein e Steve Jobs.

Ao falar sobre Da Vinci, Isaacson diz que descrevê-lo como um simples gênio, o diminui, pois passa a impressão que o versátil Da Vinci fora um abençoado por deuses, um predestinado a transformar o mundo.

Muito pelo contrário! De acordo com o autor, por trás de sua genialidade, estavam uma enorme capacidade de imaginação, muita curiosidade, e intensa observação; características estas que não só são acessíveis, mas devem ser cultivadas por todos nós.

Engenheiro, arquiteto, artista, Da Vinci foi certamente um dos maiores inovadores da história. Em destaque na biografia de Isaacson está a correlação entre seu sucesso e as adversidades enfrentadas por ele durante sua infância.

Assim como ocorrera com Einstein e Jobs, Da Vinci não cresceu em uma família tradicional. Nascido de uma mãe solteira bem nova - sua mãe tinha 16 anos de idade na época de seu nascimento - Da Vinci cresceu sem a presença de um pai no lar. Tal evento, entretanto, fora interpretado por Isaacson como algo que o liberou para se tornar um autodidata, livre das pressões impostas pela influência da alta sociedade renascentista a qual pertencia seu pai.

Não quero aqui, de forma ingênua, argumentar que a estabilidade gerada por um ambiente familiar estável seja algo a ser evitado. De forma alguma. As estatísticas relacionadas ao desempenho das crianças que crescem em lares sem pai, são definitivamente menos favoráveis, em termos comparativos, ao modelo tradicional em que os pais são capazes de manter seus casamentos por um longo período.

Entretanto, julgo importante enfatizar uma tendência predominante na qual, talvez por um excesso de atenção e um desejo inconsciente de ser amado, eliminamos toda a volatilidade ao redor dos nossos filhos, destituindo-os da capacidade de desenvolvimento de uma resiliência que provavelmente será útil ao longo de suas vidas.

Nassim Taleb dedica um bom tempo de sua obra sobre antifragilidade ao condenar o comportamento colocado em prática pelas mães de classe média norte-americana, denominada por ele como "soccer moms"

Taleb pega pesado e afirma que os pais de hoje reprimem a biofilia das crianças, o instinto de preservação, de conservação.Para o autor, os pais eliminam o tão importante processo de tentativa-e-erro.

Criam bons alunos, porém, nerds incapazes de conviver com ambiguidade. 

Ele vai adiante e afirma que as crianças precisam de aleatoriedade, bagunça, aventura, incerteza, autodescoberta e, até, experiências quase-traumáticas. 

Conclui afirmando já ter esquecido muito do que aprendera na escola, tendo guardado somente o que aprendera por si mesmo.

É difícil discordar de Taleb, mas o leitor há de convir que o convívio com a aleatoriedade traz riscos. Foi-se o tempo em que bastava estudar para um concurso público para se ter uma vida financeira estável.

Vivemos em um mundo em profunda transformação com a intensificação da robótica e da inteligência artificial.

Nos EUA, o número de pessoas inseridas no mercado de trabalho vem caindo nos últimos 15 anos, em um sinal de que está cada vez mais difícil se manter "empregável". Nunca foi tão difícil especular sobre quais profissões farão com que nossos filhos tenham uma vida tranquila, com pouca volatilidade.

Por isso mesmo, argumento aqui que nós, pais, devemos nos conscientizar a respeito deste desafio e permitir aos pequenos um maior convívio com a aleatoriedade.

Devemos deixá-los quebrar a cara de forma "controlada", como fez a personagem da atriz Sandra Bullock no filme Tão Alto e Tão Perto, ao observar de longe seu filho de 9 anos convivendo com os desafios de superar a perda de seu querido pai que falecera devido ao ataque do dia 11 de setembro de 2001.

Marink Martins