O show tem que continuar, custe o que custar!

31/07/2019

Era uma vez um mercado de ações de global cujos agentes ora se preocupavam com a atividade econômica, ora se preocupavam com a inflação. Nesta época distante, a capacidade para acessar e interpretar indicadores econômicos como PMIs (atividade econômica) e CPIs (inflação) fazia toda a diferença para o P&L (resultado) de um "guerrilheiro" que buscava extrair ganhos em um mercado que, para muitos, era considerado um passeio aleatório.

A profunda crise vivida em 2008 mudou tudo isso. O choque sobre a atividade econômica foi tão devastador que não restou alternativa aos reguladores senão colocar a vergonha de lado, e violar uma regra que deveria ser um dos pilares do capitalismo. Eu, naturalmente, estou falando da impressão de dinheiro.

Em um evento ocorrido há um mês, um dos maiores especuladores brasileiros exclamou: não são os ativos que estão se apreciando, mas sim o dinheiro que está perdendo o seu valor!

Bem, uma das peculiaridades do capitalismo global é o fato de que há uma tolerância a "roubos" desde que este seja impetrado em uma escala global. Uma inflação elevada em um único país enfraquece sua moeda e piora suas relações de trocas comerciais. Agora, quando o processo de inflação ou deflação afeta a todos, quem é que sente? Neste mundo, riqueza e pobreza são métricas relativas.

O fato é que estamos vivendo em um momento em profunda transformação.

Não só estamos alterando a nossa matriz humana -- através de tecnologias de edição genética como a CRISPR -- mas estamos também alterando as bases do capitalismo, através de um sincronismo hipócrita entre os tecnocratas que controlam o mundo.

Neste processo as vezes me sinto um dinossauro ingênuo ao reagir a divulgação de um PMI que aponta para um cenário recessivo como aquele divulgado recentemente em Chicago.

A verdade é que os tecnocratas - sejam eles políticos, reguladores, bancos centrais - vão fazer o que for necessário para que a "festa" continue. Como disse no título: o show tem que continuar, custe o que custar!

A irrelevância que já atinge índices econômicos está prestes a atingir indicadores corporativos. É esperar para ver os resultados a serem divulgados pelas empresas americanas referentes ao segundo trimestre. Sabe-se que serão fracos, mas os tecnocratas tentarão, de alguma forma, alterar sua matriz. Observe que nos últimos dois anos, os cortes de impostos de Trump, em conjunto com movimentos maciços de recompra de ações, foram peças centrais desta manipulação a que me refiro.

Não é à toa que, recentemente, o Bureau of Economic Analysis, ao divulgar o resultado do PIB do segundo trimestre nos EUA, promoveu uma mega revisão no que diz respeito a lucratividade do setor corporativo não-financeiro daquele país. Observe pelos gráficos abaixo que as margens de lucro estão estagnadas desde 2016. Além disso, o gráfico a direita nos mostra uma maior pressão inflacionária advinda de custos com salários. O corte de impostos promovido por Trump e as recompras das ações são fatores que muito contribuíram para a valorização das ações nos últimos anos.

Não há dúvidas que tal perda de receita tributária nos EUA não será compensada com ganhos na atividade econômica. Da mesma forma, também não há dúvidas que muitas empresas estão recomprando suas ações a preços elevados em um momento tardio de ciclo econômico.

Assim, tudo poderia caminhar bem ad eternum. Entretanto, mexer na matriz de algo é como abrir uma caixa de pandora. No caso da matriz humana, a comunidade científica invoca uma moratória no que diz respeito a pesquisas com células humanas. Já no caso da matriz monetária, os agentes controladores simplesmente não contam com tamanha flexibilidade. Se parar de injetar, o paciente (o mercado) simplesmente colapsa!

Marink Martins