Explorando a vulnerabilidade Trumpiana

27/06/2018

Na tarde desta segunda-feira, em um momento em que o índice S&P 500 registrava uma queda de aproximadamente 2%, Peter Navarro, que é protagonista no movimento protecionista norte-americano, foi a CNBC acalmar os mercados. Em poucos minutos, comunicou através da principal fonte de informações aos mercados, que os EUA não cogitam impor restrições a investimentos chineses no país. Os mercados rapidamente responderam e as ações se apreciaram.

É curioso como o governo Trump busca a todo custo manter sua popularidade em alta. Diante da dificuldade em obter apoio da população, o governo americano decidiu fazer uso de um posicionamento extremista em diversas frentes e, em paralelo, associar o comportamento dos mercados ao sucesso de sua administração.

Na tarde de segunda-feira, o que Navarro fez foi reiterar uma mensagem já veiculada há um ano por Steve Mnuchin, secretário do tesouro, de que a performance das bolsas funciona como uma espécie de boletim de avaliação do governo Trump.

Tal associação entre o comportamento dos mercados e o desempenho do governo é algo que o deixa extremamente vulnerável em um ambiente de guerra comercial global criado pelo próprio EUA.

Na última sexta-feira, ao impor tarifas sobre a importação de US$200 bilhões de produtos importados da China, o governo americano deixou os chineses sem a capacidade de retaliar de forma similar, devido ao fato de o volume de importações de produtos americanos na China não atingir tamanha magnitude.

Sendo assim, especialistas especulam sobre quais serão as alternativas a serem utilizadas pelos chineses nesta batalha que parece estar somente no início.

Alguns falam sobre um "dumping" dos títulos do tesouro americano. Outros falam sobre uma desvalorização da moeda chinesa.

Talvez, o mais prudente seja fazer um pouco de cada alternativa.

Imaginem que uma venda de 20% da posição chinesa em "treasuries" seja o suficiente para manter a taxa dos títulos de 10 anos com rendimento próximos a 3%. Em paralelo, uma pequena desvalorização do iuane pode parcialmente anular os ganhos americanos sem maiores impactos ao sonho chinês de transformar sua moeda em uma espécie de marco alemão asiático.

Mais eficiente, entretanto, é uma estratégia que busca criar dificuldades para empresas americanas atuando na China. Isso vai desde o boicote por parte de consumidores chineses até a instituição de uma maior burocracia em termos regulatórios.

Tudo isso, se executado de forma estratégica, poderá ir, aos poucos, minando o "espírito animal" responsável por um dos mais longos ciclos de alta da história no mercado acionário norte-americano.

Nos últimos dias, com o mundo sintonizado na Copa, pouco se fala a respeito da recente desvalorização da moeda chinesa e da deterioração de seu mercado acionário. Ao contrário do governo americano, a liderança chinesa pode se dar ao luxo de ignorar o comportamento de seu mercado de ações.

Já o governo Trump não pode dizer o mesmo!

E o que dizer a respeito do impacto de uma "correção" da bolsa americana sobre os mercados emergentes?

Tudo vai depender do comportamento da moeda americana. Caso o mercado americano vá perdendo força de uma forma amena, é possível que recursos fluam de volta para EM. Por um outro lado, em caso de um movimento mais abrupto de "risk off", aí os recursos tendem a buscar proteção no conforto dos velhos títulos do tesouro americano, fortalecendo a moeda americana, e intensificando a dor dos emergentes.

Para mais informações, assista ao mais recente MyCAP Tendências Globais abaixo:

Marink Martins


Ao longo dos últimos meses, venho chamando atenção do leitor a respeito da relação entre o agregado monetário M2 e indicadores econômicos, como o PIB Nominal e o próprio índice de ações do país.

"Denial"

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