Louis vs. Luis - Veredito Final

21/02/2018

Em agosto do ano passado escrevi um texto com o título acima no qual buscava retratar um conflito idealizado pela minha mente obsessiva; um que dizia respeito às perspectivas econômicas da China. 

De um lado encontrava-se Louis-Vincent Gave, fundador da Gavekal, uma das principais casas de pesquisa do mundo, especializada em macroeconomia global com expertise em Ásia, e do outro, Luis Stuhlberger, o mais celebrado entre os gestores de recursos brasileiros, fundador da Verde Asset.

Se em meu último comentário fui cauteloso ao afirmar que o Louis Gave estava em vantagem, neste momento não há razão para ser politicamente correto. Esta batalha acabou e o Louis Gave foi o vencedor deste confronto idealizado!

O meu ponto aqui não é de forma alguma denegrir a imagem da Verde Asset, que embora tenha amargado um ano relativamente ruim em 2017, por conta de sua aposta contra a moeda chinesa, já reconheceu o erro sem maiores prejuízos aos seus cotistas. A Verde errou assim como Kyle Bass da Hayman Capital e Jim Chanos da Kynikos Associates vem errando ao apostar em um iminente colapso chinês. E é sobre a economia chinesa que busco ilustrar neste breve comentário.

Louis Gave já foi inúmeras vezes acusado de fazer apologia a economia chinesa. Céticos não hesitam em afirmar que a Gavekal depende muito do sucesso da economia chinesa. Pode ser. E quem sou eu para questionar tal tese.

O meu ponto é que desde que comecei a acompanha-los de perto, o índice de acerto desta Casa de pesquisa tem me surpreendido positivamente.

O CALL mais brilhante foi sem dúvida aquele prevendo a derrocada das commodities em junho de 2014. Eles acertaram na mosca e eu falei sobre isso no vídeo que gravei ontem ao falar sobre a nova dinâmica de preço do petróleo.

Mais recentemente, entretanto, o CALL tem tido como foco a estabilidade, mesmo que esta tenha como origem a mão-forte de um governo centralizador.

No início de 2016, época em que o mundo se assustou diante de uma aceleração na desvalorização da moeda chinesa, Arthur Kroeber, chefe de pesquisa da Gavekal, foi rápido ao afirmar que o governo manteria sua moeda atrelada a uma cesta composta de moedas de seus parceiros comerciais. Algo que de fato ocorreu!

Além disso, muito foi dito a respeito de um segundo mandato de Xi Jinpin que teria como foco a solução de problemas relacionados a vulnerabilidade do sistema financeiro e a questões de meio-ambiente. Ambos estão sendo diretamente atacados nos últimos meses.

Diante de tudo isso, em seu mais recente relatório sobre a China, a Gavekal afirma que, nunca antes na história daquele país, houve tanto consenso entre analistas. Muitos acreditam que a China vive uma certa tregua, com declínio na expansão de crédito, mas ainda com bastante demanda oriunda do mercado imobiliário. Um outro ponto que corrobora tal tese é que os pessimistas concluíram que o custo de carregamento de suas apostas é simplesmente grande demais; com isso, jogaram a toalha.

A verdade é que os chineses voltaram a ver o céu azul em Pequim. E digo isso no sentido literal. Os esforços para reduzir a poluição na cidade já mostram sinais positivos, embora uma boa parte deste tipo de problema associado a poluição tenha sido transferido para outras regiões do país. Os preços das commodities parecem ter atingido um "sweet spot" benéfico as indústrias pesadas sem prejudicar o lado industrial do país.

Com tudo isso a China avança. Louis continua afirmando que, no longo prazo, a moeda chinesa ganhará corpo e poderá representar aproximadamente 5% das transações comerciais mundiais. Este é certamente um jogo de longo prazo, tema para um próximo texto, quem sabe narrando uma nova batalha: Trump vs. Jinping.

Marink Martins